Psicologia, Trânsito & Saúde

Psicologia, Trânsito & Saúde

ARTIGOS

Renan da Cunha Soares Júnior

9/2/20265 min read

person holding white ipad inside car
person holding white ipad inside car

Os veículos elétricos têm ficado cada dia mais frequentes no panorama das cidades brasileiras. A transição para os veículos elétricos (VEs) representa um dos maiores saltos tecnológicos e ambientais do nosso século. A promessa de cidades com ar mais limpo e poluição sonora drasticamente reduzida traz um alívio necessário para a mobilidade urbana sustentável. No entanto, quando analisamos o trânsito sob as lentes da Psicologia e da segurança viária, precisamos expandir o conceito de sustentabilidade: um sistema só é verdadeiramente sustentável se, além de preservar o meio ambiente, preservar a vida humana.

Atualmente os veículos de 2 rodas mais comuns são muitas vezes os patinetes, e aqueles com pedal que lembram as antigas Mobilette, Monareta e Garelli e são muitas vezes chamados erroneamente de Bicicletas Elétricas. Sim, se tem modulação de velocidade (por acelerador ou botão, por exemplo) não é Bicicleta! As bicicletas elétricas (categoria que tem um motor elétrico que ajuda a impulsionar o veículo enquanto o usuário pedala numa subida, por exemplo) aliás são as que talvez existem em menor número. Isso se deve a confusão que muita gente faz com os autopropelidos e ciclomotores que tem pedais, mas tem acelerador que permite controlar a velocidade. Então muito do que roda por aí não é bicicleta elétrica.

E esse entendimento faz muita diferença, pois muitas pessoas ao pensarem em bicicleta imaginam um veículo simples e de baixa complexidade e risco. Inclusive, muitos pais, tem comprado esse tipo de veículo e deixando que crianças a partir de 9, 10 anos de idade andem livremente pelas cidades tanto de maior como de menor porte, em trajetos diários como ir e voltar da escola. Muitas vezes fazem esses deslocamentos sem capacete, em duas ou três pessoas em veículos que são individuais e que eles não têm nem idade e nem conhecimento para conduzir. Vale lembrar um dos maiores riscos dos veículos elétricos de duas rodas reside na ideia que muitas pessoas/pais fazem de que eles são brinquedos! Não só não são brinquedos, como se deslocar com eles contém risco como com qualquer outro veículo. A velocidade que mata numa motocicleta ou num carro, também mata num autopropelido. Conforme elucida a Organização Mundial da Saúde, a velocidade é responsável por uma em cada três mortes por sinistros de trânsito em todo o mundo.

O filme não é novo! Antes o motor era a combustão, agora é elétrico. Em outras épocas já esteve presente a febre das Mobilettes, Monaretas e Garellis (a marca mais popular variava em cada região do país) que tinham pedais e motor e não eram brinquedos e a juventude adorava. Também houve a febre dos patinetes motorizados com os “Walk Machines”. Eram veículos caros e restritos a uma pequena parcela mais abastada da população. A diferença é que hoje os preços e condições de financiamento são muito mais convidativos e tem propiciado expansão acelerada dos atuais primos elétricos deles. A introdução em massa dos veículos elétricos altera significativamente a dinâmica e a ecologia do trânsito, trazendo novos desafios para a segurança.

A ausência de ruído do motor, por exemplo, elimina uma pista auditiva crucial que pedestres, ciclistas e pessoas com deficiência visual utilizam para calcular a distância e a velocidade de aproximação de um veículo motorizado. Além disso, os VEs possuem torque instantâneo — o que significa que aceleram de forma extremamente rápida — e são consideravelmente mais pesados devido as baterias, aumentando a energia cinética envolvida em caso de impacto – para se ter uma ideia, um patinete comum tem cerca de 5 kg em média, contra 15 kg de um elétrico. O uso de equipamentos de segurança como capacetes, mesmo quando não exigido por lei para alguns veículos de micromobilidade, é uma recomendação importante de segurança.

É neste cenário de mudança tecnológica que a análise do comportamento de risco se torna indispensável. Em minhas pesquisas e publicações sobre a eficácia de intervenções viárias e o impacto de políticas públicas como o Programa Vida no Trânsito, tenho reforçado uma premissa fundamental: o comportamento humano no trânsito não ocorre no vácuo; ele é diretamente influenciado pelas condições do ambiente e pelas ferramentas que operamos.

Quando um condutor assume a direção de um veículo elétrico, a resposta imediata da aceleração pode atuar como um gatilho para comportamentos impulsivos. O excesso de velocidade, que já é um dos principais fatores de risco para a severidade dos sinistros, encontra na potência silenciosa dos VEs um terreno fértil. A ausência do "ronco" do motor retira do condutor o feedback sensorial tradicional de que o veículo está em velocidade, exigindo um nível de monitoramento cognitivo (visualizar constantemente o velocímetro) ao qual muitos não estão habituados. Dentro dos princípios da Visão Zero e dos Sistemas Seguros, o erro humano deve ser previsto e mitigado, jamais aceito como justificativa para lesões graves ou mortes. Se sabemos que a nova tecnologia altera a percepção de velocidade e elimina avisos sonoros naturais, o comportamento de risco não deve ser combatido apenas com punição, mas com adaptação sistêmica.

Isso envolve desde a exigência de emissores acústicos artificiais (AVAS) em veículos elétricos como já acontece em carros comercializados na União Européia desde 2021, até o redesenho de vias e a implementação de zonas de velocidade reduzida (como as vias de 30 km/h que defendemos para áreas de grande circulação de pedestres). Do ponto de vista psicológico, exige a reformulação dos processos de formação de condutores, preparando-os cognitivamente para as especificidades da condução de veículos elétricos.

A eletromobilidade é, sem dúvida, o futuro. Aliás, um futuro que já dá largos passos na realidade presente. Mas, para que esse futuro seja seguro, a tecnologia dos motores precisa caminhar de mãos dadas com as ciências do comportamento. Afinal, inovar no trânsito não é apenas trocar a matriz energética da frota; é garantir que todas as vidas cheguem em segurança aos seus destinos.

Referências

BRADSHAW, Lisa. More than 40% of electric vehicle crashes involve pedestrians or cyclists., Bruxelas, 28 ago. 2026. Disponível em: https://www.vrt.be/vrtnws/en/2026/08/28/more-than-40-of-electric-vehicle-crashes-involve-pedestrians-or/. Acesso em: 31 ago. 2026.

LONG, Rongxian; LIU, Chenhui; YAN, Song; YANG, Xiaofeng; LI, Guangcan. Exploration of Crash Features of Electric Vehicles with Traffic Crash Data in Changshu, China. World Electric Vehicle Journal, [S. l.], v. 16, n. 3, art. 185, mar. 2025. Disponível em: https://www.mdpi.com/2032-6653/16/3/185. Acesso em: 31 ago. 2026.

MCDONNELL, Kevin; SHEEHAN, Barry; MURPHY, Finbarr; GUILLEN, Montserrat. Are electric vehicles riskier? A comparative study of driving behaviour and insurance claims for internal combustion engine, hybrid and electric vehicles. Accident Analysis & Prevention, [S. l.], v. 207, art. 107761, nov. 2024. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0001457524003063. Acesso em: 31 ago. 2026.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Managing speed. Genebra: Organização Mundial da Saúde, 2017. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/managing-speed. Acesso em: 31 ago. 2026.

SOUZA, Lucas Tadeu Albino; LESSA, Daniela Antunes; CARDOSO, Leandro; LOBO, Carlos Fernando Ferreira. (Micro)mobilidade por patinetes elétricos: avaliação psicométrica da importância de atributos associados ao ambiente construído para a escolha de se utilizar o modo em Belo Horizonte. Transportes, [S. l.], v. 31, n. 3, art. e2913, 2023. Disponível em: https://transportes.anpet.org.br/anpet/article/view/2913. Acesso em: 31 ago. 2026.

*Renan da Cunha Soares Júnior é Psicólogo do Trânsito, Especialista em Educação para o Trânsito, Psicologia da Comunicação e do Marketing e Mestre e Doutor em Psicologia da Saúde. Atualmente é Diretor Nacional de Comunicação da ABRAPSIT, Palestrante e Professor.

Junte-se a nós e fortaleça a psicologia.

© 2025. Ponto.etc/criador-de-sites